Acordei pela amarga manhã e me percebi sozinha em minha cama. Mas já? Depois de um demorado banho, bebi uma xícara de café, abri ligeiramente as cortinas para olhar a luz do dia através da janela escura. Meus olhos vêem tudo, mas não conseguem enxergar nada exceto o céu monocromático e milhões de árvores tingidas de cinza. Não havia nada errado.
Procurei minha jaqueta favorita no guarda-roupa… poderia fazer frio ao entardecer. Percebi que fiz uma enorme bagunça em meu quarto e, sinceramente, não me importei. Lembrei que deixei a jaqueta no sofá… Quando mesmo? Peguei um sapato simples nude, salto médio. Faltava o sutiã de renda que caia perfeito com a blusa por baixo da jaqueta. Estava no sofá, assim como minha bolsa. Desde a última noite. É, ficamos de início na sala e quando entramos no quarto já estávamos semi-nus, e eu mal havia notado e…
Sai na rua e uma luz forte e familiar queima meus olhos, mas não a reconheço. Percebi um tom borrado de azul no alto, mas cores no dia? Mera impressão, só poderia ser.
Entrei no metrô e, para o meu bem, não estava lotado, pois era domingo. Ainda havia um banco vazio onde eu poderia me sentar e pensar, mas sem a certeza de que poderia ser saudável permitir minha mente deixar-se levar. Melhor folhear o jornal diário e me distrair. Droga! Não peguei o jornal hoje. De mal humor, sentei-me no banco e olhei a paisagem pela janela. Cinza. Tentei me distrair com a variação do preto no branco, para impedir pensamentos que estavam ansiosíssimos para assolar minha mente. Em vão.
Fui atropelada por um caminhão carregado de verdades indesejadas. Ele me derrubou, descarregando sobre mim todos os fatos de minhas últimas noites. Aqueles que ignorei. Por todos os dias tinha acordado sozinha depois de uma louca noite, geralmente acompanhada. Aos 21 eu adorava isso. A falta de compromisso era como um desafio pra mim. 11 anos depois, me frustra, corrói meu ego e me faz sentir incapaz.
Tenho um emprego invejável. Meu nome esbanja status social. Consigo levar quem eu quero pra minha casa depois de um longo dia, e nessa hora me sinto tão poderosa! Como se todas as coisas transbordassem brilho e cores. Contudo, pela manhã o tom cinza retorna e a rotina mais uma vez prevalece. Fico me imaginando daqui a 30 anos. Filhos e netos nunca surgiram nesses pensamentos, e isso me preocupa.
As pessoas dizem me conhecer. Conhecem minha face, são ignorantes quando se trata de quem realmente sou. Sou ignorante quando se trata de quem realmente sou. Me olham com desejo e interesse estampados em seus rostos. Recebo inúmeras ligações masculinas ao longo do dia e, sem clarividência alguma, sei tudo o que têm a me dizer cada vez que o telefone toca porque é sempre a mesmice. A mesmice que não sei me livrar, só vou lidando de uma maneira que agora vejo o quão incerta vem sendo.
Depois de tanto tempo vivendo meus dias sozinha, questiono-me se a vida é só isso. Já ouvi muitos dizeres sobre o amor e o companheirismo, mas nunca os experimentei. Nunca os desejei. Sempre me vi com mais que isso. Agora vejo que sempre tive menos que isso. Dinheiro não é problema. Carros, viagens, tudo me é possível.
Mas hoje eu acordei querendo o impossível, o impossível que eu via em mim. Por isso ignorei o carro na garagem e vim andando até a estação do metrô. Por isso comprei um bilhete e sentei ao lado desta senhora com semblante adorável e olhos tristes, exatamente do padrão que eu jamais repararia corriqueiramente. Até agora. Porque hoje tinha de ser diferente.
Algum tempo depois, o metrô pára. Fui pra longe, onde poucos me reconheceriam. Ao descer, desastradamente enrosquei meu salto em um declínio esburacado no chão da estação, o que fez meu pé torcer para o lado. Cai naquele solo cheio de pedrinhas. (PAUSA PARA A RAIVA/VERGONHA) Enquanto me arrependia de tentar sair da rotina e passar por tamanho constrangimento, um toque leve e macio em meu braço interrompeu meu diálogo interno e uma voz aveludada próxima ao meu ouvido disse: “Posso ajudar-lhe?”.
Ao olhá-lo, me perdi em seus olhos no tom de azul celestial, uma cor que eu jamais havia notado antes, e só percebi que precisava lhe dar uma resposta ou qualquer sinal que indicasse que eu estava lúcida, quando ele revelou o sorriso mais doce que já vi, e naquele momento tive certeza que nunca mais veria um rosto mais angelical que aquele, e que nunca havia sentido nada parecido ao que eu estava sentindo.
Aquela era a primeira vez que eu via as cores que decoravam o dia.
(Este foi meu primeiro texto publicado, meio clichê, mas o que me motivou a continuar escrevendo e disponibilizando para quem quisesse ler. E foi aqui mesmo no Utopia Real [http://utopiareal.tumblr.com/post/2319185807/hoje-sempre-vai-ser-diferente], que na época era “Infinity Admiration”. Mas está numa “versão adaptada”. Gosto de fazer alterações simples, mas que dão um toque diferente ao texto e à ideia, e não vejo problema algum nisso, uma vez que só estou modificando/otimizando minha própria criação e republicando-a. Ao longo do tempo, postarei mais textos antigos, sobretudo os primeiros, com alterações. Fernanda Corrêa)