“Por que você se alimenta de algo que te consome?”
Faz mal. “Mas o que não faz, não é mesmo?” — Pois assim seja.
Ele estava encarcerado naquele ciclo, e gostava disso. Ou sua mente o anestesiava então aí ele gostava. Se fosse de outra forma ele também gostaria? Desconsidere isto. O pobre já excluiu as possibilidades por si só. Lamentável.
Mas ele não lamenta, não, ele adora estar lá, todos os dias depois de seu trabalho que julga seu orgulho, mas esquece do resto. Afinal, o resto é só o resto, inútil. O resto que o torna quem é.
Encosta-se no muro do bar da rua de cima, pedinho mais uma garrafa. Pede. Implora. Já estava ficando difícil, a conta muito alta, o dinheiro que já havia se esvaído, e a promessa de cada dia que no outro dia quitaria tudo o que devia. Aquelas promessas de vigarista, mas vigarista ele não era. Era só um infeliz que sorria para tudo que via, acreditando ser o salvador da humanidade perdida.
Com um jeitinho que inspirava experiência, conseguia sua garrafa e ia para casa, contente. Jogava a carteira vazia no sofá embolorado e ia buscar o copo de sempre, o da sorte. Sorte… então ligava o computador, ansioso, esperando curar o sofrimento de mais um coração ferido. Hipócrita. Ingênuo.
Nunca sabia por onde começar. Não importava, acessaria tudo de uma forma ou outra. Bastava ficar online para que a euforia começasse. Mas ele tinha tempo para todas, sempre tinha. Então cuidava de todas elas, enquanto tomava mais um gole, e fingia. Mostrava um rosto que desconhecia. Dizia coisas que não vivia. Contava o que não fazia. Mas ele era perfeito. O garoto dos sonhos. Ou pelo menos fazia acreditar que era.
A cabeça sempre trabalhando, miraculando, fazendo alguém que não era. O corpo sempre escondido, protegido por um monitor e algumas teclas. A voz alterada, o telefone que não emudecia nunca. A vida que corria, outra pessoa que criava, um alguém oculto, mas que era parte dele, um “ele” idealizado. Uma pessoa inalcançável, mas que o homem zelava tanto por ele. E dia após dia, depois de seu trabalho miserável e da ida ao bar, inventava um dia inédito, novas experiências e jorrava “eu te amo” para todas aquelas que o idolatravam.
Vivia por quem não era. Fazia mal. Como ele sairia disso? Acabaria com a vida? Com qual? A que ele vivia ou a de quem dizia que vivia? Perdia-se por vezes, mas gostava daquilo. Era incrível, eram planos perfeitos. Mas era tudo uma farsa.
Tudo aquilo o consumia, mas era do que ele se alimentava.

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