Já era tarde da noite. O relógio ressoava alguma hora que ela já não conseguia ver com clareza. Mas pouco importava: as horas, a escola no dia a seguir, o vazio de vida naquela casa. Nada disso tinha real importância desde que ela estivesse próxima à um papel, uma caneta, um computador ou até mesmo uma máquina de escrever.
As junção de palavras clamava pelo nome dela e, como uma serva de frases sem razão, ela atendia aos clamores com um prazer indizível.
Sempre escrevia o que via; o que inventava. Sempre transcrevia o que pensava e o que sentia, tarefa essa muito árdua, mas que gerava tal felicidade naquela menina sonhadora que ninguém seria capaz de tirar.
A casa vazia. Só ela, a TV gritando algum programa americano e sem valor algum. O que a fazia sentir-se humana era digitar com seus diminutos dedos num teclado de letras apagadas, mas que de tão familiarizados que eram, não era necessário ao menos olhar para ele enquanto escrevia. Só olhava para o monitor, mas os pensamentos estavam longe, em qualquer lugar do mundo que se possa imaginar.
Discorria sobre sua família, sobre seu amor, sobre seus amigos, sobre o que inventava, sobre utopias deliciosas, sobre realidades cruéis. Discorria sobre o que bem queria.
Alguns até diziam que ela deveria ser autora, quando crescesse. Outros diziam que tinha um talento belo para descrever coisas tão difíceis de serem aceitadas e/ou entendidas por humanos. Mas pouco importavam esses elogios. Ela tampouco sabia se eram sinceros. O que sabia era que humanos são tão dissimulados quando querem, mas mesmo assim ela era apaixonada por eles. Todos eles, os humanos. Sempre fora.
A ideia de ser uma famosa autora, escritora — ou como queiram chamar, não seduzia a simplória garotinha. Ela só escrevia porque era o que a fazia feliz. Mesmo que nada do que produzisse fosse lido, ela lia tudo por inúmeras vezes: concertava erros, modificava uma palavra aqui, outra ali, alterava uma frase, refazia tudo. Até achar que estava perfeito. Depois ela saia por ai, carregando em suas pequeninas mãos apenas um livro velho, qualquer um. Gostava de livros velhos. Eles sempre foram atrativos para ela. Tinham história marcadas em suas páginas, e não me refiro à história escrita que trazia; já tinham passado por muitas mãos, lidos por muitos olhos, traduzido por muitas mentes.
Saía por aí com qualquer livro velho, sentava em um banco de uma praça, um parque ou simplesmente abaixo de uma árvore, para que pudesse desfrutar de uma sombra fresca e viajar.
E assim era a vida da menina: pouco se importava com o que era tarefa, mesmo que não deixasse de fazer, mas se importava mesmo com o prazer que a escrita e a leitura a traria se o fizesse. Digo que ela já passou pelo mundo inteiro. É uma verdadeira e autêntica viajante. As páginas velhas já levaram-a para onde ela bem queria.
E ai de quem ousar discordar.

Para ela, sempre fora até fácil discorrer sobre assuntos sobre vidas alheias, mas quando era sobre ela mesma, era quase impossível.
Mas estou aqui falando de mim, o que não foi agora (e nunca) algo fácil. É incrível como parece que sabemos tanto sobre nós mesmos, mas transcrever isso é árduo. Mas a garotinha é persistente. Ou diria, eu sou persistente. Alguns dirão que passar horas escrevendo isso é tolice.
Mas é o que me torna alguém feliz.
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