Havia montes de pedras todas muito próximas, e enquanto a estrada ia passando, o cenário pedrento transformava-se em rochas, tão irregulares, ganhando formas estranhas. Não estava bonito de ser ver. Nos flashs que permitia enquanto passava pelas rodovias, podia brincar de atribuir formas para cada rocha, pedra, ou pedacinho de grama que tentava emergir do monte de sólido. Só passatempo.
Tinha uma cabeça, oval, muito cinza, parecia cheia de pregos. Uma cabeça muito feia. Sem vida. Tinha uma falha que lembrava a linha dos olhos. Sombrios. Uma cabeça realmente feia. E depois desta, vieram outras cabeças. Grandes, diminutas, bochechas côncavas… caveiras. Sem olhos, apenas crânio. Feias… Próxima.
Uma pedra polida! Não maior que um antebraço. Lembrava um cone, estava deitada sobre uma grande rocha desmerecida de atenção. A parte superior era arredondada, depois ia afinando triangularmente. Um microfone! Interessante, mas próximo.
Destacável! Cercada de pequenas pedras, uma rocha erguia-se majestosamente sobre o solo indiscernível. Tão diferente, não tinha formas quadráticas, tampouco lascadas, ou polidas. Tinha curvas. Naturais, curvas que se assemelhavam com a silhueta de uma mulher. Um tronco humano. Grande, imponente, ereto como uma postura impecável do homem. Perto desta, as outras pedras e outras rochas pareciam pequenas, inexistentes, como se fossem só parte de um cenário monocromático usado para destacar uma figura importante. Como uma majestade sobre súditos.
A estrada ia passando, correndo, incansável, entre cabeças feias, microfones e troncos humanos — não tão grandes e destacáveis quanto o primeiro. A brincadeira cansou. Abriguei o sono, então desviei meus olhos para o céu.
Nele, sob a luz do crepúsculo avermelhada, jazia uma grande nuvem, na forma de um coração grande, queimando como fogo sob a luz do Sol poente, sobre todas as pedras, sobre todas as rochas, sobre mim. Sobre tudo.

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