Lar de borboletas


[…] E é só você quem tem a cura pro meu vício de insistir nessa saudade que eu sinto de tudo que eu ainda não vi. […]
Os dias seriam todos iguais se não fosse o farfalhar de alguma coisa dentro da barriga que ninguém nunca sabe ao certo explicar o quê é. Alguns dizem popularmente ser borboletas. Desconheço o motivo desse exemplo, mas não pode ser algo ruim, afinal essas criaturas me encantam, e a sensação me extasia ao pousar meus olhos em outro par.
As borboletas à princípio são lagartas, então têm todo um tempo pra se prepararem para encarar a vida como borboletas formadas, dentro de um protetor casulo. Deveria ser assim com os humanos: algo maior que a infância para nos preparar para viver em conjunto na sociedade como seres teoricamente crescidos e prontos. Como se algum dia estivéssemos prontos. É que falta algo. Algo concreto. A vida passa a ser mais temerosa quando se baseia no imaginário, por mais que não posso negar que seja emocionante a incerteza do que virá depois. Depois do hoje, ou depois da vida. Mas tem de haver um depois, para sempre tem de haver.
O problema é ansiar demais pelo agora que é o depois. Ter o concreto do que sempre foi imaginário. Aplicas isto num sorriso. Não precisar conter um sorriso, um olhar revelador ou um simples toque.
Voltemos: estar perto de quem deseja estar ao lado e ter de esconder, esperar para um depois que tem de vir mas não vem. Fingir. Temos que ter prática nisto. A vida exige. E isso me soa quase como um pecado, ter de conter coisas tão belas e raras pelos diversos motivos. Contudo, imaginem só se sairmos contando nossos sentimentos mais secretos e íntimos para quem quiser saber, ou pior: para quem é receptor (não tendo ciência disto) destes sentimentos secretos. Algumas pessoas não podem saber, senão torna-se fácil; perde-se o valor por completo. E assim muitos perecem os caminhos de toda a vida escondendo o que deveria ser contado e guardando para depois o que deveria ser vivido.
Vamos mais fundo: por que há tanta cautela? 
Medo.
Incerteza. 
A falta de reciprocidade, a insegurança com o ser interior e exterior e o receio de sofrer frustrações são as principais causas do ser humano manter um amor platônico por outro durante dias incontáveis. Lamentável, eu sei. Sou humana, sinto e sinto demasiadamente para compreender um mínimo — quase nada — da razão das borboletas no estômago citadas antes.
Sei como elas vêm à mim: o contato com a coisa pela qual zelo. Não é uma coisa, é uma pessoa. Uma coisa-pessoa. Ora coisa, ora pessoa. Mas é bom que sempre haja alguém. Faz bem. Dói, é claro, ainda há o medo e a incerteza, e eles machucam o íntimo do coração. Mas há os olhos intensos, o sorriso doce e sincero, a pele macia, os cabelos charmosamente desgrenhados… Ah, como eu sei. Parece que conheço cada parte daquele ser.
Vai-se esperando, continuando a notar a diferença dos sorrisos que moldam os dias e dão individualidade a cada um deles. Pois as borboletas mudam seu abrigo, e em mim elas sempre encontrarão um lar.

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