Resistindo, resistindo...


Havia luzes demais; pessoas demais, quando um só buscava a alma do outro em meio tantos corações perdidos nas noites onde só havia sombra e frio. Um cigarro não saciava mais os lábios carnudos e não mais provocavam a sensação de conforto em seus pulmões desoxigenados. E o que mais temiam estava ali, zombando da estupidez de ambos: o rastro da droga ainda recém-usada por tantos os cantos tentando encontrar um lugar no corpo quase sem vida de cada um. 
A música escandalizava a perdição ao redor. Todos lúcidos de sua auto-desgraça, alienados no desdém que se ofereciam como que se fosse um favor às suas vidas. E os dois, depois de tanto tempo cronometrado provavelmente apenas pelo céu cinzento, ainda jaziam ali, cada qual no seu respectivo medo. Distantes pelo corpo, siameses na alma. 
Pouco dando vazão ao motivo, saíram desesperados em busca de si próprios. Mas as luzes coloridas chamuscavam a vida sem cor; era tudo contraditório e de tanto o ser, já era tolice ousar compreender.
Então corriam contra o monocromático, porém sentiram lágrimas demais sobre suas cabeças perdidas. A chuva fria de Agosto apanhava com cada gota um pedaço a mais dos corações quebrados, e não eis de indagar para onde os leva. Tudo que sabe-se é que dizem que um dia devolvem-os. E naquela noite ainda demasiada densa, fumacenta e cinza, bruscamente os corpos chocaram-se.
Os olhos vermelhos, os narizes fragmentados com a droga, as bocas carnudas convidando-se para uma conversa muda. 
— Por favor, não chore — o pedido súplice por uma voz que clamava pelo passado que tanto desejava por ser presente e futuro; estas palavras proferidas por uma alma que conhecia minuciosamente o paraíso que jazia sobre suas cabeças, e olhos fixos uns nos outros, cada par deles encontrando-se enfim, resistindo, resistindo, resistindo e não contendo-se mais. Quatro olhos vertendo em lágrimas que lavaram toda uma vida encarcerada no medo e dando boas-vindas ao júbilo que por tempos os aguardava. 
Finalmente o dia clareava, ilustrando duas vidas que estavam à começar a caminhar sobre um Mundo rochoso, mas recebendo de braços rendidos e de bom grado seu merecido desanuvio. Formando uma aliança: um e o outro. Tão certo e complexo quanto o nascer do Sol no coração de todos nós.

0 comentários:

Postar um comentário