Doce rendição


O Sol já havia se recolhido há quase uma hora. As estrelas já começavam a cintilar, num show particular apenas nosso. Que dia lindo fora aquele! 
Chegamos à minha casa, contudo, como de costume, ficamos parados no portão por alguns segundos, apenas olhando para algo que tanto gostamos: o céu noturno. Entramos até a varanda, que tem uma visão bastante privilegiada em relação à qualquer outro lugar do Mundo. Não sei se é porque fora ali que tudo havia começado. Provavelmente estou certa. Se há um lugar que eternizou-se em nosso amor é a minha varanda florida. Não costumo cultivar flores, mas as vejo por toda parte quando estamos lá. A varanda é florida e ponto. Vejo também fagulhas de estrelas penetrando os aires; penetrando meu olhos. Se cravando em nosso coração. 
Eu estava prestes a me sentar sobre o chão quando fui interrompida. Mal tive tempo de me questionar o porquê disto quando meu amor esticou uma folha de jornal sobre onde eu estava quase a sentar. Não aguentei reprimir um riso. Um riso cheio de ternura, de admiração. Sempre achei incrível a forma da qual me tratava – me trata. Gentileza. Doçura. Cuidado. Amor. 
Me encolhi sobre uma parte da folha de papel que fora esticada, de forma a garantir um lugar para “abrigar” meu amor do chão frio. De forma a ficarmos o mais próximos possível. Nos abraçamos e assim ficamos por um tempo que fugiu do meu relógio. Se eu tivesse um desejo com uma promessa de ser cumprido, com certeza eu escolheria viver o resto de meus dias nessa doce rendição. 
Mas gradativamente o dia ia se tardando e eu tinha tantos e tantos afazeres para o amanhã. Logo minha mãe viria a surgir na varanda e me chamaria para entrar, afinal “uma moça não deve perecer defronte à sua casa, pois os vizinhos comentam” e tudo mais. Aquelas coisas de mãe. 
Então antes que ela viesse e proferisse todas essas frases que pouco me encorajavam a adentrar minha casa, rompi, relutante, a névoa quente e aveludada que se fazia presente sempre que estávamos num contato físico. Uma névoa que vibrava energia, irradiava calor, irradiava paixão. Amor. Novamente amor. Sempre o amor. Sempre. Enfim. Rompi a névoa e disse que precisávamos prosseguir com nossa árdua rotina que nos consome quando estamos longe. Mas antes, é claro, convidei-o para o jantar, receosa de receber como resposta as mesmas palavras de sempre: “É melhor eu ir embora, anjo, está tarde e você tem tantos deveres para fazer! Meu orgulho!”.
E assim, depois de selarmos um beijo doce, lento e completamente apaixonado, cada um voltava às suas situações cotidianas e corriqueiras da vida, mas levando consigo mais um pedacinho de lembrança, daquelas que não se apagam. Daquelas que fazem sonhar.
“É a vida, filha”, dizia sempre minha mãe ao me ver entrar em casa com os olhos longe dali; com o coração em um lugar que desconheço o endereço, mas onde encontro o de meu anjo. 
Saudade. Ela já me esperava em minha cama, como de costume, para me fazer dormir. Espero que o faça logo, pois tenho pressa de acabar esse dia, pois amanhã nos encontraremos de novo, de novo, de novo. Sentaremos, abraçados, na varanda florida e seremos consumidos pelos fragmentos de estrelas. Mas sempre é algo novo. Parece sempre a primeira vez. A sensação esquisita – maravilhosa – na barriga, aquela que parece que há borboletas comemorando cada toque que arrepia nossas peles, sempre está lá, nos aguardando na varanda.
Amanhã já estava chegando. Enquanto eu aguardava, pedia baixinho, em pensamentos, que meu amor me encontrasse em meus sonhos.
E assim o foi.
Para sempre.

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