“Se eu fosse você, já teria desistido.”
Muita gente já teria desistido, sobretudo aqueles que perecem na ignorância dos detalhes mais íntimos bem ao fundo, bem nos escombros do todo.
Ninguém assistiu deste assento privilegiado. Desta perspectiva tão particular, intransferível. E ao menos um único ser sequer participou do ato no mesmo instante finito em que subi ao palco, e brilhei. Brilhei como se cada partícula de oxigênio dos infindáveis minutos seguintes dependessem do brilho que emanava.
Instante finito… E fim.
As luzes se apagaram. Ilusão demasiada o anseio de prolongar o ato até que o céu fosse o limite, como o brilho das estrelas que pairam tão longe, além do céu, “além do que se vê”.
As luzes se apagam, e passa a vez.
Não parecia o suficiente. Precisava subir outra vez, convencer à todos, convencer principalmente à quem estava na área privada de que era boa o bastante para conseguir, antes de permitir que o próximo subisse e estrelasse. Não por temer o brilho alheio, apenas por precisar estar na constância de emanar a luz própria, porque era este o oxigênio seguinte; o combustível da vida.
E precisava viver.
Mas o tempo não cedeu-se, e tão logo quanto as luzes se apagaram, se reacenderam revelando outra figura no centro do palco. Então era tarde. Já era outro espetáculo que dispunha outra energia; não um brilho, só uma energia monocromática como a neblina que você vê ao longe, e só às vezes sente. Porém, como a lei da natureza, se era uma energia, então energizava.
E, no particular, sentia que cada minuto a mais era um a menos. O ar esvaia-se gradativamente. A falta dele e a outra energia sufocava.
Os minutos não se permitiam esperar, e sabia que estava terminando. Tudo se acabando, por um brilho retraído.
Outro apagão. Próximo?
Foi quando surgiu. Uma esfera da mesma matéria do brilho, pairando, despreocupada, no centro do palco de cortinas agora entreabertas. Flutuava na gravidade, com movimentos tão leves, como numa dança. Surreal; encantador. Hipnotizador. Uma pequena esfera mágica, verdadeiramente contagiando com sua graça. Com seu brilho que completava o que era preciso para gerar ar; para gerar vida.
Irresistível. Mas parecia que tamanho efeito só surtia em quem carregava a fonte. Só surtia em mim.
Caminhei lenta e cuidadosamente até a parte frontal do palco. Dispensei escadas. Ergui-me, lutando contra a vontade de correr até o centro, de forma a subir na superfície elevada. Encarei a esfera, que ainda pairava, que ainda dançava, ainda estonteava. Me aproximei de forma que ela estava na altura dos olhos. Ergui uma de minhas mãos, com tamanho cuidado, como se eu pudesse ferir aquele brilho tão gracioso.
Então toquei.
Tudo explodiu em cores, em ar, em vida, em brilho… em esperança. Então eu não precisava de mais nada, tudo estava dentro de mim. Porque finalmente encontrei a permanência ali.
Ali… o meu lugar.
E vivia… pra sempre.

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