Se acomode, por favor


Os dias vão passando, e a alma perece aqui, por vezes ferida, em outras intacta.
Jamais pensei como seriam os dias do “anos depois”. Imaginava feições, amores, filhos, metamorfoses físicas e psíquicas, mas não imaginara os dias. Os dias corriqueiros, o cotidiano, o simples dia-a-dia. 
Rezava para alcançar com rapidez a independência. Aquele espírito jovial, com pressa, sedento por aventura e prazer. Espírito esse que espero que não morra mesmo com o passar de tantos anos que prefiro não mensurar. Rezava tanto para ser independente que quando finalmente o fui, não soube o que fazer de tantas que eram as opções que o aparente acolhedor mundo oferecia. Então esperei a independência me resgatar. Contudo, ela me traiu. Logo eu que tanto esperava o melhor dela.
E então os dias passaram.
Liberdade ou não. Já não fazia diferença. Afinal, a liberdade jamais estivera aqui, mesmo que por (muitas) vezes eu a tivesse cobiçado e perdido noites luz de sono miraculando planos para conquistá-la. É, já não fazia diferença realmente.
Os dias passaram e eu não me preparei para recebê-los. Não fiz um chá, esqueci dos biscoitos e perdi a chave da porta. Mas, sem dar atenção para nenhum destes detalhes, todos aqueles dias adentraram o hall de minha casa e se acomodaram em minha vida. Estavam plenamente confortáveis em mim, mas eu não o estava neles. De qualquer forma, tivemos que nos adaptar uns aos outros. Afinal, uma eternidade deles ainda estariam por vir, um atrás do outro, e eu teria que ter espaço para acomodar todos eles.
É… em toda aquele sede por independência e liberdade, esqueci de preparar um lugar dentro de minha alma para acomodar o Tempo. Mas estamos ambos aqui, passando, tictateando nos relógios da vida, esperando que eles parem de badalar.

0 comentários:

Postar um comentário