"Flash de uma psicose"


Era tarde da noite. O quarto estava escuro.
Olhei pro lado, com uma certa dificuldade em abrir os olhos, e grata por não ter vestígio algum de memórias que tragam-me qualquer lembrança, qualquer coisa. É mais fácil estar livre de pesares, de obrigações, cobranças, mas enfim, olhei pro lado. E os vi.
São muitos estes olhares. Será que todos eles, sem excetuar nenhum, são pra mim? São muitos, não posso segurá-los por completo! Não há ajuda, só há demasiada escuridão. Mas eu sinto que estes olhos sempre estiveram aqui, e todos eles são familiares à minha fome.
Quero pegá-los, mas estes se esvaem de minhas mãos, de meus braços. Tampouco posso senti-los… isso vem me frustrando. São grandes, assustadores; assustados. Não são vazios, trazem muitas coisas, são tão cheios — cheios de quê? — e refletem perturbação ao encontrar os meus. Todos eles refletem algo sem luz, frio, amargo; gostoso, vivo, convidativo.
Já sinto meus olhos chamuscarem desejo só de imaginar um contato com todos estes olhares. Só de pensar na deliciosa dor que eles me trarão. Eu preciso… eu preciso que eles permitam-me adentrar suas entranhas, que permitam-me provar de suas torturas. Mas está tudo tão árduo, e confesso o quão isso me deixa mais tentada à ir.
São muitos olhos deliciosamente grotescos. Contudo, desprovidos de qualquer face. São muitas mensagens trazidas juntas… não posso captá-las, entendê-las. Será que não compreendem minha ignorância? Mas venham! Eles fogem, não me dão tempo, fogem com uma rapidez exagerada… estúpidos. Não podem se esvair daqui como escoam de meu toque, bem como não posso sequer ir à lugar algum. Estamos presos aqui dentro desse quarto escuro e eu adoro isso.
Preciso prová-los…
Estou faminta, sedenta e completamente louca pra provar estes olhos perturbadores.

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