Querida Molly


Querida Molly
Desta vez não consegui reprimir a vontade de lhe escrever. Faz alguns meses desde o último sorriso, eu sei… não poderia esquecer. Mas mesmo com seu pedido súplice, com seu olhar que não me foge à mente, não pude evitar; as palavras saem da mente direto ao papel, formando rabiscos dos quais muitos foram pro lixo, mas com estes aqui tive mais cuidado. As próprias palavras ganharam uma certa dose de cautela, na verdade; contra minha vontade, sim… ah, Deus sabe como eu queria explicitar tudo o que sinto, sem medir frases, mas as condições não me permitiram tal prazer.
Sua voz ainda soa por meus ouvidos dizendo “vá, por favor, se me ama, então vá” e isso me tortura desde que você as proferiu. Queria que soubesse o quão difícil foi mover-me naquele instante para concretizar seu pedido; todas fibras de meu corpo recusaram-se a sair e lutei horrivelmente com meu próprio eu, mas quem venceu foi você. Cedi como sempre fiz… disse há muito que não lhe negaria nada que me pedisse. Se eu pudesse voltar atrás, acho que apagaria estas palavras e as desenharia de uma outra forma. Quem sabe assim eu resistiria à tudo o que me disse naquela tarde chuvosa de um Janeiro que jamais poderei esquecer. Quem sabe assim estas palavras escritas agora seriam descartadas, porque eu faria outras tantas para dizer ao pé de seus ouvidos, enquanto a envolveria num abraço daqueles como se o mundo precisasse disso para sanar sua fome.
Molly, minha Molly… desculpe-me se o termo não mais lhe for de grado. É difícil controlar o impulso de agir como se aquela tarde não houvesse existido, pois meu anseio de acordar é de uma indizível imensidão. Contudo, a vida faz questão de me lembrar que o que eu deveria querer mesmo é dormir para sonhar; mas não importa mais. A vida pode seguir seus caminhos carregando minha recusa de aceitar em sua bagagem.
Os sonhos… estes me remetem à outro termo que gostei tanto de usar: anjo; Molly, meu anjo. Não, não devo mais me punir por reusar o que já foi tanto querido um dia. Lhe chamo da maneira que preferir, afinal sou o autor destas palavras. Você as aceita se esse for o sentimento que domará sua mente ao lê-las, e as guarda se esta for a vontade de seu coração. Mas os sonhos, anjo, os sonhos… você os dominou por todos estes meses, elevando-os ao ápice da doçura rumando até ao assoalho da amargura. Mas em uma coisa todos se assemelharam: o fim. No fim de cada um eu via seus olhos queimando outra vez e sua boca tentando proferir os dizeres ”vá, por favor, se me ama, então vá”. 
Oh, querida… se eu não a amasse, eu poderia fazer sua vontade de bom grado com um sorriso gravado no rosto. Mas o amor tirou qualquer vasto de sorriso que outrora preencheu meus lábios. Estranho, não é mesmo? O amor me deu tudo e depois levou. Parece um ato covarde, se não o for.
Me perdi em tantas as vezes em que rabisquei um papel e o joguei no lixo. A vontade de falar-lhe sempre perturbou-me, sim, mas a falta de coragem encarou uma briga brava com a vontade. Ao ler isso, saberá quem venceu por final. 
Não sei se estou aqui apenas contando como está a vida que você limitou à mim ou se estou apenas escrevendo-te a fim de alimentar a esperança de obter uma resposta, tão simples quanto for. Não quero arriscar palpites quanto à isso… já que me conhece tão bem, te dou o direito pleno de julgar, na confiança de que fará o julgamento mais correto cabível a nossa realidade.
Disse e disse muito do que não está gravado em letras até agora, mas até o mais tolo dos homens consegue ler o que deixei implícito: o amor que lhe carrego. Preciso (e muito) dizer que as marcas de seu pedido estão abrindo espaço para as lembranças doces que somamos, e a Saudade trata-se de cuidar bem de todas elas. O que ficou é simplesmente (e grandemente) o amor que se faz presente há anos, temperado agora com a saudade e que me faz quem fui e agora rege a melodia de meus caminhos.
Meu amor, só eu sei a saudade que você deixou, e a falta que me faz pra alegrar minhas manhãs. Hoje vivo com as lembranças e elas são tudo o que tenho. E mesmo que você não possa estar em meus braços agora, para eu sussurrar nossa canção, eu fico com a felicidade que outrora possuí. Tenho que lhe agradecer por deixar viva a esperança em mim e por me fazer acreditar no amor. Foi você que me trouxe à este mundo real, e mesmo que eu lhe encontre apenas em meus sonhos, a vejo aonde forem meus caminhos.
E agora, querida, que já lhe disse um pouquinho do que guardei nesse tempo, sei que o fim de meus sonhos será outro. Esperarei que este diferente desfecho se dê e continuarei zelando por você; orando por você e para que um dia eu possa lhe contar a nova forma que você apareceu pra mim nos meu mais doce e vivo desanuvio.
Com todo amor que há nessa vida,
Arthur

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