Sem remorso


Demasiado desespero. Os dias não se dão mais com as costumeiras 24 horas; são 1440 minutos porque na ansiedade fez-se exagero e capricho. 1440 minutos implicam 24 horas. É a mesma coisa, teoricamente são os mesmos dias de sempre, contudo não os enfrento mais como deveria fazê-lo, com conformismo acomodado. Se deveria fazê-lo. Apenas são dias encarados com outras representações, outras capas de conteúdo exatamente idêntico. Ou haveriam controversas no contexto? Talvez um parágrafo a mais e dois a menos. Talvez uma ideia explicitada e duas recém-sacrificadas. A troca de 2 por 1, tão mal negócio. Mas isso não importa, nunca fui mulher de bons negócios. E talvez, tantos “talvezes”, seja esta uma causa do desespero: não saber negociar. Não saber lidar. Não sei lidar. Controlar é missão impossível. E não é um impossível desafiador, aquele que desperta a emoção de coragem pra provar que é possível o impossível. É o impossível da lista de impossíveis daqueles que é melhor deixar como sendo impossível, inquestionável, imutável e ponto. É impossível controlar porque não quero controlar. Quero me afogar naquilo. Sem culpa, sem regras, sem remorsos, sem limites impostos por seja-quem-for. Assim sendo, saudei a missão do desespero.
Abrir a porta de casa e me deparar com as feições de ontem me aborrece. A vida do ontem me incomoda. Lugar de ontem é no ontem. Lugar de ontem não é todo dia. E pela desesperada incompreensão do estado de espírito que me encontro, considero uma, duas, três vezes segurar o primeiro passante pelo colarinho tão bem ajeitado e indagar: “Por que vocês não vêem?” Por que eles não vêem que as coisas passaram por uma tensa mutação? Tudo ficou desigual e descontrolado, mas as feições, as extremamente irritantes feições alheias, de tão estagnadas não se permitiram enxergar.
Tudo está tão diferente, repito, e quero me perder na diferença. Ninguém vê, é o que me desespera. Se ninguém vê, só mudou comigo. Apenas eu desejo, vejo, anseio. E não queria digerir isso, não deveria estar pronta. Nunca se está pronto. Mas acontece. O “sentir” acontece. 
E desde que senti, eu vi. Foi aí que comecei a contar 1440 minutos por dia, um após o outro. Uma decisão enlouquecedora e estúpida, equivalente a paixão que senti. Enlouquecedora e estúpida, e que ninguém jamais viu.

Só mais um dia de trabalho


 Ergui o rosto e encarei minha face encharcada no espelho lascado. A torneira ainda derramava água como uma cascata esgotada e manchada pela terra de um barranco em risco de desabamento.
         Fixei a mesma imagem. Por entre as gotas escuras via-se tantas marcas. Não marcas, cicatrizes. “As cicatrizes são provas de que tentamos, erramos e crescemos.” E mal sei se alcancei a primeira etapa, só conquistei-as ano após ano, desde que… desde que me lembro.
         Olhos tão fundos, vazios, dois buracos negros, mas com assoalho. Com assoalho porque se não tivesse seria infinito, e as duas órbitas negras eram de plena ausência de quê e desesperada finitude. Tão finitos embora tão fundos. Tão escuros…
         Os lábios eram duas linhas finas e áridas pelo tempo seco, que se tocavam desconfortavelmente, sem opção ou saída. Duas obrigações não-relutantes, apenas conformadas de serem secas e manter-se na constância do contato do superior com inferior, inferior com superior, nessa eterna permanência.
         Nariz fino, narinas esbranquiçadas. Passei a mão e limpei o resquício que ainda estava ali.
         E duas bochechas côncavas e o resto tudo cicatriz. Irregulares, superfícies singulares de uma história, cada uma delas. Cada uma delas era um livro, cada uma um clímax.
         Estudei-me tanto que me vi de expressão cansada. Vi-me de expressão cansada desde antes de abrir a torneira, desde antes de chegar ali, desde antes daquele dia, desde antes de saber meu nome.
         Era só quem eu era, dizem que isso não se muda. Era só uma caixa de conformismo, assim como meu lábio superior encara o inferior. Era só como vivia.
         E a torneira ainda dava espaço à água; caminho livre. O barulho das gotas, aquele exato usado em torturas, enchia meus ouvidos. Não incomodava. Nada incomodava. Não existia incômodo por não existir ansiedade. Não precisava chegar à gota seguinte, tampouco ao dia seguinte. Só estava ali, defronte ao espelho, o rosto agora úmido, abrigando o par de órbitas negras, o nariz fino e os lábios de linha reta. Já bastava por ser aquilo, estava tudo bem.
         Não estava bom, porque não conhecia o bom. Mas não estava mal, pois o desconhecia da mesma forma. Só existia, executava e existia. Sem móvitos, para quê existiam? Quem eu era? Eu trabalhava. 
         Só trazia lembranças, de tudo o que havia visto. Havia visto e revia a cada cicatriz.
         Fechei a torneira e girei nos calcanhares, sem graciosidade, sem delicadeza. Peguei a arma que estava sobre a mesa e li o endereço no papel molhado que jazia ao lado. Estudei o nome que também estava escrito. Não seria uma pessoa, apenas era um nome. Um nome prestes à ser lapidado. Saí de casa ao encontro do nome que me foi dado. Só mais um dia de trabalho.
         Estava tudo bem…

Descarregamento não-atrativo


Grita, faz birra, desconta tudo. Se arrepende, chora, quer gritar outra vez só por ter gritado a primeira irracionalmente. Quer abrir a torneira e deixar tudo se esvair. Mas não pode. Nunca pôde, mas fez. 
Ela quer trazer pra perto, quer um lenço, quer um pause. Quer um escudo, uma espada, quer cessar o marejar dos olhos baixos de vida decadente.
Quer força.
Uma conversa boa, uma previsão futurística, uma ilusão boa. Uma expectativa que a atraia. 
Quer vestígios de sol. Mas no fim do dia vai se limitar a derramar mais algumas lágrimas, transcrever todas as palavras jamais proferidas, ansiando que ninguém as leia. Pois agora só os dedos são capazes de fluir o que sente, já que o que se sente não pode ser dito, ouvido, visto. 
Já que para cada demonstração explícita, existe um abafador à esquerda e uma pedra à direita.

Subindo e fazendo vida


“Se eu fosse você, já teria desistido.”
Muita gente já teria desistido, sobretudo aqueles que perecem na ignorância dos detalhes mais íntimos bem ao fundo, bem nos escombros do todo.
Ninguém assistiu deste assento privilegiado. Desta perspectiva tão particular, intransferível. E ao menos um único ser sequer participou do ato no mesmo instante finito em que subi ao palco, e brilhei. Brilhei como se cada partícula de oxigênio dos infindáveis minutos seguintes dependessem do brilho que emanava.
Instante finito… E fim.
As luzes se apagaram. Ilusão demasiada o anseio de prolongar o ato até que o céu fosse o limite, como o brilho das estrelas que pairam tão longe, além do céu, “além do que se vê”.
As luzes se apagam, e passa a vez.
Não parecia o suficiente. Precisava subir outra vez, convencer à todos, convencer principalmente à quem estava na área privada de que era boa o bastante para conseguir, antes de permitir que o próximo subisse e estrelasse. Não por temer o brilho alheio, apenas por precisar estar na constância de emanar a luz própria, porque era este o oxigênio seguinte; o combustível da vida. 
E precisava viver.
Mas o tempo não cedeu-se, e tão logo quanto as luzes se apagaram, se reacenderam revelando outra figura no centro do palco. Então era tarde. Já era outro espetáculo que dispunha outra energia; não um brilho, só uma energia monocromática como a neblina que você vê ao longe, e só às vezes sente. Porém, como a lei da natureza, se era uma energia, então energizava.
E, no particular, sentia que cada minuto a mais era um a menos. O ar esvaia-se gradativamente. A falta dele e a outra energia sufocava. 
Os minutos não se permitiam esperar, e sabia que estava terminando. Tudo se acabando, por um brilho retraído.
Outro apagão. Próximo?
Foi quando surgiu. Uma esfera da mesma matéria do brilho, pairando, despreocupada, no centro do palco de cortinas agora entreabertas. Flutuava na gravidade, com movimentos tão leves, como numa dança. Surreal; encantador. Hipnotizador. Uma pequena esfera mágica, verdadeiramente contagiando com sua graça. Com seu brilho que completava o que era preciso para gerar ar; para gerar vida.
Irresistível. Mas parecia que tamanho efeito só surtia em quem carregava a fonte. Só surtia em mim. 
Caminhei lenta e cuidadosamente até a parte frontal do palco. Dispensei escadas. Ergui-me, lutando contra a vontade de correr até o centro, de forma a subir na superfície elevada. Encarei a esfera, que ainda pairava, que ainda dançava, ainda estonteava. Me aproximei de forma que ela estava na altura dos olhos. Ergui uma de minhas mãos, com tamanho cuidado, como se eu pudesse ferir aquele brilho tão gracioso.
Então toquei.
Tudo explodiu em cores, em ar, em vida, em brilho… em esperança. Então eu não precisava de mais nada, tudo estava dentro de mim. Porque finalmente encontrei a permanência ali.
Ali… o meu lugar.
E vivia… pra sempre.

Hoje sempre vai ser diferente


Acordei pela amarga manhã e me percebi sozinha em minha cama. Mas já? Depois de um demorado banho, bebi uma xícara de café, abri ligeiramente as cortinas para olhar a luz do dia através da janela escura. Meus olhos vêem tudo, mas não conseguem enxergar nada exceto o céu monocromático e milhões de árvores tingidas de cinza. Não havia nada errado.
Procurei minha jaqueta favorita no guarda-roupa… poderia fazer frio ao entardecer. Percebi que fiz uma enorme bagunça em meu quarto e, sinceramente, não me importei. Lembrei que deixei a jaqueta no sofá… Quando mesmo? Peguei um sapato simples nude, salto médio. Faltava o sutiã de renda que caia perfeito com a blusa por baixo da jaqueta. Estava no sofá, assim como minha bolsa. Desde a última noite. É, ficamos de início na sala e quando entramos no quarto já estávamos semi-nus, e eu mal havia notado e…
Sai na rua e uma luz forte e familiar queima meus olhos, mas não a reconheço. Percebi um tom borrado de azul no alto, mas cores no dia? Mera impressão, só poderia ser.
Entrei no metrô e, para o meu bem, não estava lotado, pois era domingo. Ainda havia um banco vazio onde eu poderia me sentar e pensar, mas sem a certeza de que poderia ser saudável permitir minha mente deixar-se levar. Melhor folhear o jornal diário e me distrair. Droga! Não peguei o jornal hoje. De mal humor, sentei-me no banco e olhei a paisagem pela janela. Cinza. Tentei me distrair com a variação do preto no branco, para impedir pensamentos que estavam ansiosíssimos para assolar minha mente. Em vão.
Fui atropelada por um caminhão carregado de verdades indesejadas. Ele me derrubou, descarregando sobre mim todos os fatos de minhas últimas noites. Aqueles que ignorei. Por todos os dias tinha acordado sozinha depois de uma louca noite, geralmente acompanhada. Aos 21 eu adorava isso. A falta de compromisso era como um desafio pra mim. 11 anos depois, me frustra, corrói meu ego e me faz sentir incapaz.
Tenho um emprego invejável. Meu nome esbanja status social. Consigo levar quem eu quero pra minha casa depois de um longo dia, e nessa hora me sinto tão poderosa! Como se todas as coisas transbordassem brilho e cores. Contudo, pela manhã o tom cinza retorna e a rotina mais uma vez prevalece. Fico me imaginando daqui a 30 anos. Filhos e netos nunca surgiram nesses pensamentos, e isso me preocupa.
As pessoas dizem me conhecer. Conhecem minha face, são ignorantes quando se trata de quem realmente sou. Sou ignorante quando se trata de quem realmente sou. Me olham com desejo e interesse estampados em seus rostos. Recebo inúmeras ligações masculinas ao longo do dia e, sem clarividência alguma, sei tudo o que têm a me dizer cada vez que o telefone toca porque é sempre a mesmice. A mesmice que não sei me livrar, só vou lidando de uma maneira que agora vejo o quão incerta vem sendo.
Depois de tanto tempo vivendo meus dias sozinha, questiono-me se a vida é só isso. Já ouvi muitos dizeres sobre o amor e o companheirismo, mas nunca os experimentei. Nunca os desejei. Sempre me vi com mais que isso. Agora vejo que sempre tive menos que isso. Dinheiro não é problema. Carros, viagens, tudo me é possível.
Mas hoje eu acordei querendo o impossível, o impossível que eu via em mim. Por isso ignorei o carro na garagem e vim andando até a estação do metrô. Por isso comprei um bilhete e sentei ao lado desta senhora com semblante adorável e olhos tristes, exatamente do padrão que eu jamais repararia corriqueiramente. Até agora. Porque hoje tinha de ser diferente.
Algum tempo depois, o metrô pára. Fui pra longe, onde poucos me reconheceriam. Ao descer, desastradamente enrosquei meu salto em um declínio esburacado no chão da estação, o que fez meu pé torcer para o lado. Cai naquele solo cheio de pedrinhas. (PAUSA PARA A RAIVA/VERGONHA) Enquanto me arrependia de tentar sair da rotina e passar por tamanho constrangimento, um toque leve e macio em meu braço interrompeu meu diálogo interno e uma voz aveludada próxima ao meu ouvido disse: “Posso ajudar-lhe?”.
Ao olhá-lo, me perdi em seus olhos no tom de azul celestial, uma cor que eu jamais havia notado antes, e só percebi que precisava lhe dar uma resposta ou qualquer sinal que indicasse que eu estava lúcida, quando ele revelou o sorriso mais doce que já vi, e naquele momento tive certeza que nunca mais veria um rosto mais angelical que aquele, e que nunca havia sentido nada parecido ao que eu estava sentindo.
Aquela era a primeira vez que eu via as cores que decoravam o dia.
(Este foi meu primeiro texto publicado, meio clichê, mas o que me motivou a continuar escrevendo e disponibilizando para quem quisesse ler. E foi aqui mesmo no Utopia Real [http://utopiareal.tumblr.com/post/2319185807/hoje-sempre-vai-ser-diferente], que na época era “Infinity Admiration”. Mas está numa “versão adaptada”. Gosto de fazer alterações simples, mas que dão um toque diferente ao texto e à ideia, e não vejo problema algum nisso, uma vez que só estou modificando/otimizando minha própria criação e republicando-a. Ao longo do tempo, postarei mais textos antigos, sobretudo os primeiros, com alterações. Fernanda Corrêa)

Puxo na tomada


Incomum, desconfortável e novata sensação: ansiar e temer mesclando-se o tempo inteiro, incansáveis, não desistem. Tão instável, não se encaixa no mundo que idealizei através dos planos mudos nas noites imensuráveis em que repousei minha cabeça no travesseiro. Lá, brinco de tudo ou  nada. Meio termo é para meio-gente. Há quem diga que é um lugar ilusório para onde vou me refugiar. Isso deveria importar? Criei, é meu, é real. Faço o lugar cheio de grama, sombra, doces e música boa. Faço feliz.
E digo “oi” para a Felicidade.
Ela vem, chega bem perto, roça sua matéria aveludada em minha pele e pára. Alguém chama meu nome bem ao longe, distante, de onde eu não deveria estar. A Felicidade esvai-se. É como quando se coloca um cigarro nos lábios e o tira rapidamente, roubando o tempo de sentir o trago nos pulmões. 
Aí machuca, pois meus calcanhares são puxados do meu lugar. Coração humano demais. Uma vida necessitada, viciada demais pra largar sua droga: seu mundo, sua ilusão, sua utopia. Não faz diferença alguma.
Desligo tudo às cegas, pois não encontro botões pause. Puxo na tomada, é mais seguro. E volto pro que é meu.
E viajo.

Cabeças, microfones e troncos


Havia montes de pedras todas muito próximas, e enquanto a estrada ia passando, o cenário pedrento transformava-se em rochas, tão irregulares, ganhando formas estranhas. Não estava bonito de ser ver. Nos flashs que permitia enquanto passava pelas rodovias, podia brincar de atribuir formas para cada rocha, pedra, ou pedacinho de grama que tentava emergir do monte de sólido. Só passatempo.
Tinha uma cabeça, oval, muito cinza, parecia cheia de pregos. Uma cabeça muito feia. Sem vida. Tinha uma falha que lembrava a linha dos olhos. Sombrios. Uma cabeça realmente feia. E depois desta, vieram outras cabeças. Grandes, diminutas, bochechas côncavas… caveiras. Sem olhos, apenas crânio. Feias… Próxima.
Uma pedra polida! Não maior que um antebraço. Lembrava um cone, estava deitada sobre uma grande rocha desmerecida de atenção. A parte superior era arredondada, depois ia afinando triangularmente. Um microfone! Interessante, mas próximo.
Destacável! Cercada de pequenas pedras, uma rocha erguia-se majestosamente sobre o solo indiscernível. Tão diferente, não tinha formas quadráticas, tampouco lascadas, ou polidas. Tinha curvas. Naturais, curvas que se assemelhavam com a silhueta de uma mulher. Um tronco humano. Grande, imponente, ereto como uma postura impecável do homem. Perto desta, as outras pedras e outras rochas pareciam pequenas, inexistentes, como se fossem só parte de um cenário monocromático usado para destacar uma figura importante. Como uma majestade sobre súditos.
A estrada ia passando, correndo, incansável, entre cabeças feias, microfones e troncos humanos — não tão grandes e destacáveis quanto o primeiro. A brincadeira cansou. Abriguei o sono, então desviei meus olhos para o céu.
Nele, sob a luz do crepúsculo avermelhada, jazia uma grande nuvem, na forma de um coração grande, queimando como fogo sob a luz do Sol poente, sobre todas as pedras, sobre todas as rochas, sobre mim. Sobre tudo.

Se morre, se mata


Frustra porque passa o predeterminado eterno. A promessa improferida de que haveria sempre um par de mãos pronto para cessar a queda antes mesmo que ela pudesse se consolidar. A promessa muda de que não haveria riscos. Promessa que dançou nos olhos, fez calor na ponta do nariz gelado e pousou, em descanso merecido, em um pulso jorrante.
E foi-se. Perde-se ou é lançada ao céu? Conte até três e espere que as estrelas a guarde.
Que assim seja? Então amém.
São muitas vias e assim as pessoas migram para caminhos alternativos todo o tempo, perdendo-se nas estradas de uma distância imensurável. Os amigos costumeiros e tão bons que eram parte do que me fazia sociável: onde? O espaço estará os guardando para a semana que vem? Um dia, um dia… 
A amizade não pode ser utópica.
E eu me importo até que me digam que é o limite. Ou não. Ultrapassou o limite, suicídio. Contudo dispenso o que me dizem. O limite é uma palavra demasiada limitada, compreendam. Aceito o que excede o nada. Assim se basta.
Pois então. As palavras traem. As palavras traíram, mas traição já se perdoa. Já se perdoa a boca que é a dona da voz que diz.
Se perdoa promessas eloquentes e nada justas pois já não há tempo de ressentir. Presumo, então, não haver tempo de ansiar. Tempo de chegar ao cofre para guardar promessas e aguardar o ato.
Assim não há tempo de um sopro chegar ao céu. Aí as estrelas não mais se fazem lar.
Então se morre.
Porque se mata.

Monocromático


Quando tudo se mostra monocromático, a vontade ou o chamado emergencial é de apenas retratar, transcrever, sem entender, sem vaidade, sem pretensão. Sem maldade. Um par de olhos, duas mãos. A mente oscilando entre a energia e a tecla pause invisível. Os astros girando lá em cima, como as pessoas no encalço das próprias pegadas deixadas para trás, girando em torno de si como sendo de total ignorância sobre o que é ser.
Tudo monocromático.

Apoio cômodo e seguro


Não é por que eu quero que aja alguém secando algumas lágrimas precoces que eu precise disso para respirar fundo e seguir para o próximo sorriso.
Não é que eu precise que aquela rua do meu trajeto corriqueiro à um destino qualquer nunca esteja em obras, é só por eu ter me adaptado. Por ter acostumado pois sou muito acomodável.
Não é que eu não queira ousar. Não é que eu não queira um novo emprego, um novo curso, um trajeto alternativo, um lenço de outra cor. É que o que fiz de rotina é seguro. É conhecido. É que eu preciso me apoiar no esperado porque com ele eu sei lidar; porque nele eu vivo no mesmo sofá, na mesma mesa, na mesma rua, nas mesmas pessoas.
É seguro. É previsível. São os mesmos caminhos, que perecem imutáveis por um tempo que me é movível.
Mas o que me faz tola no final, é que mesmo com as idênticas ruas, os ventos são outros.

Feliz aniversário!


 O tempo não se limita a passar. Ele vai além: corre, voa, ruge, grita, pára, e passa, e passa, e passa… Só não volta. Não por isso ei de lamentar.
     Há um ano tive a noite que considero a mais especial e bonita em minha vida. Foi o começo, ou o recomeço de algo que já se fazia presente em mim há muitas luas. Desde então, o tempo discorreu tão suave que olho para trás e poderia acreditar que aquele 13 de fevereiro de 2011 foi ontem. Contudo as tantas lembranças aveludadas fazem com que a sensação da ausência de intervalo mescle-se com a realidade de que já fazem 365 dias, nos quais muitos foram difíceis e dolorosos, mas não foi suficiente para nos deixar só, pois nos tínhamos, na alegria e na tristeza, amém.
    Quem seria Senhor dos Dias para fazê-los todos de calmaria e alegria? Não sei e confesso não ansiar saber, pois se não fossem os infortúnios destes caminhos, os dias seriam banhados apenas por felicidade acomodada. E de comodismo não me basto; não me faço. Se é para haver felicidade, que haja a ausência dela para que assim clamemos por ela. Se for para amar, que odeie. Mas que sinta. Que viva.
    E como vivemos. Enfrentamos, choramos, e como sorrimos! Cada dia, sendo no mesmo sofá, no mesmo lugar, era diferente pois os sorrisos se renovaram, acompanhando e melodiando no mesmo compasso do amor.
    Pois como não me fosse suficiente fazer-te feliz, me faço feliz para que essa minha felicidade encontre a tua e assim por cada dia que virá possamos esperar por novas explosões da junção de duas atmosferas completas de tudo o que há de bom. Duas atmosferas de um amor comum, porém de tanta diferença, a diferença que encaixa no todo. Que completa sem deixar um único centímetro temer pela ausência de qualquer coisa.
    Agradecer já é rotina: aos Céus, Deus, à ti. Pelo amor, pelos momentos e dias que desanuviamos, por cada desencontro e por cada encontro, pois se é preciso desencontrar para encontrar, que nos desencontremos, mas que não demore, que venha sempre, que nunca saia realmente do meu lado, de minha frente, de minhas costas, porque sempre haverá aqui ombros, colo, sorrisos, olhos e um coração completamente disposto a fazer feliz à quem tanto zelei por mais de um ano, por quem tanto zelo, por quem quero bem e continuarei (continuaremos) a lutar para que continuem havendo estrelas nos cobrindo como manto.
            Eu amo. Eu amo você. 
Feliz Aniversário.

"Curtindo a vida adoidado"


Viver a vida preparando-se para longos prazos tão incertos. O Futuro, aquele que à Deus pertence, ou aquele que à ninguém pertence. Talvez aquele que seja de alguns, mas que para outros acabou-se. Ou mesmo aquele que é só uma palavra criada para explicações impossíveis. 
Algumas coisas não existem. O que existe é o que se sente, que é além do que se pode ver. O presente existe. Mas espere: ele já passou. O segundo seguinte está lá mas quando estamos prestes à desejar-lhe boas-vinda ela já se foi.
Poetas de rua, artistas, humanos dizem sempre: “a vida é muito curta”. E é. Veja e encare os fatos dessas poucas palavras de sabedoria profunda e prática. Experimente lembrar de um momento que seja especialmente bom para você e reviva-o em sua mente. Feche os olhos. 
Se você escolheu seu melhor momento por toda a vida, até agora, aquele onde você sentiu que poderia voar mesmo sem um sopro de vento ou sem ao menos um rascunho de asas, note que os detalhes da lembrança são muito vivos, e que você pôde sentir como se o tempo (qualquer que seja o valor de dias que foi mensurado no intervalo entre aquele momento e este) jamais tivesse passado. Isso é porque o que é bom não vai-se. O que vai-se é apenas o que não teve valor, o que não vale a pena preservar. Então se há um momento como este, sinta-se feliz. Você tem uma bagagem por essas estradas.
Não temos um futuro. Temos o presente que corre livremente e o passado que é intocável. Temos o agora para desenharmos as mais diferentes linhas que quisermos e temos algumas lembranças num baú seguro.
O que é bom é que esse baú é infinito, e quanto mais cheio fica, torna a vida mais leve. Mais doce. “Que seja doce”. Pois que seja doce, mas que seja tudo. Pois sem amargura não há doçura. Então que a amargura haja para nos mostrar o quão doce cada vez mais tudo pode vir a ser.
Você quer respostas. Todos queremos saber. Contudo, elas não existem se você não as fizer. A vida não responde. A vida só existe, mas quem vive é você. Então seja sua resposta. Se quer que tudo fique bem, então diga que tudo ficará bem. Diga. Placebo funciona. Mas faça. Faça com que fique bem.
A vida é muito curta. “Life is too short.” Então aja para que seu baú seja leve. Porém não viva dentro dele. Viva na vida. Viva a vida. Viver é preciso. É preciso pois é preciso ser bom, não por ser preciso ser de alguma forma. Se não for bom, cada dia é uma sobrevivência vã, não uma vivência.
Curta a vida adoidado. Ela passa. 

Não deveria


Não deveria produzir tamanho efeito. Me dói e quando não dói é uma sensação de pseudo-felicidade. Assassina do ego. Não é felicidade consumida de fato. É falsa. É falsa pois não existe, são apenas os sonhos, os anseios, o impossível. Por ser um desejo faz diferença nos dias e nas noites. Não deveria…
É que eu sempre espero demais. Espero que me sorriam, que me olhem, que me vejam, que me queiram bem, que me zelem. Que amem. Que não sejam os todos sempre a mim. Mas que amem.
É que eu sempre espero demais. Não deveria…
Pois então surge o sentimento incompleto de algum abandono que não existe. Só existe na minha mente por achar que eu era para quem não me tinha. Logo que o confortador amor não vem, o psicológico sente-se incapaz. Não deveria…
São coisas muito tolas… São coisas que não deveriam existir nos momentos que fazem doer o âmago da capacidade sentimental. 
Não deveria…
Só não espero que me entendam. Os sonhos não podem voar tão além do horizonte.

Lar de borboletas


[…] E é só você quem tem a cura pro meu vício de insistir nessa saudade que eu sinto de tudo que eu ainda não vi. […]
Os dias seriam todos iguais se não fosse o farfalhar de alguma coisa dentro da barriga que ninguém nunca sabe ao certo explicar o quê é. Alguns dizem popularmente ser borboletas. Desconheço o motivo desse exemplo, mas não pode ser algo ruim, afinal essas criaturas me encantam, e a sensação me extasia ao pousar meus olhos em outro par.
As borboletas à princípio são lagartas, então têm todo um tempo pra se prepararem para encarar a vida como borboletas formadas, dentro de um protetor casulo. Deveria ser assim com os humanos: algo maior que a infância para nos preparar para viver em conjunto na sociedade como seres teoricamente crescidos e prontos. Como se algum dia estivéssemos prontos. É que falta algo. Algo concreto. A vida passa a ser mais temerosa quando se baseia no imaginário, por mais que não posso negar que seja emocionante a incerteza do que virá depois. Depois do hoje, ou depois da vida. Mas tem de haver um depois, para sempre tem de haver.
O problema é ansiar demais pelo agora que é o depois. Ter o concreto do que sempre foi imaginário. Aplicas isto num sorriso. Não precisar conter um sorriso, um olhar revelador ou um simples toque.
Voltemos: estar perto de quem deseja estar ao lado e ter de esconder, esperar para um depois que tem de vir mas não vem. Fingir. Temos que ter prática nisto. A vida exige. E isso me soa quase como um pecado, ter de conter coisas tão belas e raras pelos diversos motivos. Contudo, imaginem só se sairmos contando nossos sentimentos mais secretos e íntimos para quem quiser saber, ou pior: para quem é receptor (não tendo ciência disto) destes sentimentos secretos. Algumas pessoas não podem saber, senão torna-se fácil; perde-se o valor por completo. E assim muitos perecem os caminhos de toda a vida escondendo o que deveria ser contado e guardando para depois o que deveria ser vivido.
Vamos mais fundo: por que há tanta cautela? 
Medo.
Incerteza. 
A falta de reciprocidade, a insegurança com o ser interior e exterior e o receio de sofrer frustrações são as principais causas do ser humano manter um amor platônico por outro durante dias incontáveis. Lamentável, eu sei. Sou humana, sinto e sinto demasiadamente para compreender um mínimo — quase nada — da razão das borboletas no estômago citadas antes.
Sei como elas vêm à mim: o contato com a coisa pela qual zelo. Não é uma coisa, é uma pessoa. Uma coisa-pessoa. Ora coisa, ora pessoa. Mas é bom que sempre haja alguém. Faz bem. Dói, é claro, ainda há o medo e a incerteza, e eles machucam o íntimo do coração. Mas há os olhos intensos, o sorriso doce e sincero, a pele macia, os cabelos charmosamente desgrenhados… Ah, como eu sei. Parece que conheço cada parte daquele ser.
Vai-se esperando, continuando a notar a diferença dos sorrisos que moldam os dias e dão individualidade a cada um deles. Pois as borboletas mudam seu abrigo, e em mim elas sempre encontrarão um lar.

Nada. Apenas nada.


Tudo gera o nada. O vazio, o nada de uma alma que outrora foi semeada por explosões contínuas de detalhes, e que hoje é uma junção de fagulhas sem quem ou por quê.
A confusão faz morada em cada coração desolado, e quis tanto não ser o meu um dia. Tanto falei sobre o tempo, sobre almas e perdão, porém as palavras pousaram no soalho da vida, e tão rápido quanto descansaram, se esvaíram. Se eu precisar delas por ventura, pressinto não encontrar nada que exceda um copo de bar.
Disseram-me. Prometeram-me. Já não faz diferença alguma. Saber, ouvir ou confiar já se tornou questão de passa-tempo; só ouço, com interesse forjado, para não me afundar de vez no tempo e no tédio. Talvez seja isso tudo o que me mantém com a mente viva. 
Porque confiar é um tiro no escuro. Acreditar é uma incógnita no breu. Só hei de decifrar todas elas quando eu precisar de um coração para ceder-me abrigo e me trazer de volta para uma vida de corpo, coração, espírito e alma.

Perfeição


Quem inventou o conceito que de a perfeição é absolutamente a ausência de defeitos?
Tudo isso é um equívoco, se querem saber minha opinião. Vejo perfeição em coisas que são definitivamente crescentes rente à defeitos, e isso, somado às escolhas de caráter e qualidades de um alguém é que o torna perfeito. Porque passando acima de qualquer defeito, é na hora de decisões que as pessoas mostram-se verdadeiramente. E quebrar os limites das “imperfeições” é o caminho para a perfeição. E digo mais: quem ama alguém, o ama por seus defeitos também, porque ninguém é sujeito de não possuir nenhum; e assim o acha perfeito. 
 A questão é ultrapassar limites que desde nosso nascimento nos foram impostos por toda uma sociedade padronizada. Por uma sociedade que acha um defeito alguém ser gordo demais, magro demais; que acha que é uma imperfeição terrível ver em alguém trajes fora da moda que eles próprios criaram. 
A perfeição para os escravos da aparência é o que eles ditam na TV, nas revistas e nos websites. A perfeição, segundo seus olhos anuviados pelo egocentrismo, pode ser simplesmente reduzida à humanos-robóticos, sem vida independente e sem opinião, ou seja, pessoas manipuláveis pra servirem de robôs e continuarem inseridos nessa cadeia inacabável.
Mas, para mim, a imperfeição de fato é, por exemplo, querer usar um jeans velho e rasgado e não fazê-lo por medo de ser julgado, sabendo que o que vem em primeiro lugar é o contentamento com si próprio e não com os demais, mas sendo míope o bastante para não ver realmente essa verdade. Isto sim é um defeito. Contudo, usar o que todos usam por sentir-se bem com isso é terminantemente bom.
O que quero dizer, na verdade, é que os defeitos sempre estarão caminhado ao nosso lado, bem de perto, sejam os defeitos que auto-criamos em nossa psique ou os que criaram por nós, e continuar caminhando com isso e passando por um de cada vez é o que nos torna perfeitos humanos.
O que é imperfeito é viver para ser escravo das “imperfeições”. O perfeito é ser livre completamente e exclusivamente por si, e não pelo resto do planeta: apenas para o seu mundo.

Querida Molly


Querida Molly
Desta vez não consegui reprimir a vontade de lhe escrever. Faz alguns meses desde o último sorriso, eu sei… não poderia esquecer. Mas mesmo com seu pedido súplice, com seu olhar que não me foge à mente, não pude evitar; as palavras saem da mente direto ao papel, formando rabiscos dos quais muitos foram pro lixo, mas com estes aqui tive mais cuidado. As próprias palavras ganharam uma certa dose de cautela, na verdade; contra minha vontade, sim… ah, Deus sabe como eu queria explicitar tudo o que sinto, sem medir frases, mas as condições não me permitiram tal prazer.
Sua voz ainda soa por meus ouvidos dizendo “vá, por favor, se me ama, então vá” e isso me tortura desde que você as proferiu. Queria que soubesse o quão difícil foi mover-me naquele instante para concretizar seu pedido; todas fibras de meu corpo recusaram-se a sair e lutei horrivelmente com meu próprio eu, mas quem venceu foi você. Cedi como sempre fiz… disse há muito que não lhe negaria nada que me pedisse. Se eu pudesse voltar atrás, acho que apagaria estas palavras e as desenharia de uma outra forma. Quem sabe assim eu resistiria à tudo o que me disse naquela tarde chuvosa de um Janeiro que jamais poderei esquecer. Quem sabe assim estas palavras escritas agora seriam descartadas, porque eu faria outras tantas para dizer ao pé de seus ouvidos, enquanto a envolveria num abraço daqueles como se o mundo precisasse disso para sanar sua fome.
Molly, minha Molly… desculpe-me se o termo não mais lhe for de grado. É difícil controlar o impulso de agir como se aquela tarde não houvesse existido, pois meu anseio de acordar é de uma indizível imensidão. Contudo, a vida faz questão de me lembrar que o que eu deveria querer mesmo é dormir para sonhar; mas não importa mais. A vida pode seguir seus caminhos carregando minha recusa de aceitar em sua bagagem.
Os sonhos… estes me remetem à outro termo que gostei tanto de usar: anjo; Molly, meu anjo. Não, não devo mais me punir por reusar o que já foi tanto querido um dia. Lhe chamo da maneira que preferir, afinal sou o autor destas palavras. Você as aceita se esse for o sentimento que domará sua mente ao lê-las, e as guarda se esta for a vontade de seu coração. Mas os sonhos, anjo, os sonhos… você os dominou por todos estes meses, elevando-os ao ápice da doçura rumando até ao assoalho da amargura. Mas em uma coisa todos se assemelharam: o fim. No fim de cada um eu via seus olhos queimando outra vez e sua boca tentando proferir os dizeres ”vá, por favor, se me ama, então vá”. 
Oh, querida… se eu não a amasse, eu poderia fazer sua vontade de bom grado com um sorriso gravado no rosto. Mas o amor tirou qualquer vasto de sorriso que outrora preencheu meus lábios. Estranho, não é mesmo? O amor me deu tudo e depois levou. Parece um ato covarde, se não o for.
Me perdi em tantas as vezes em que rabisquei um papel e o joguei no lixo. A vontade de falar-lhe sempre perturbou-me, sim, mas a falta de coragem encarou uma briga brava com a vontade. Ao ler isso, saberá quem venceu por final. 
Não sei se estou aqui apenas contando como está a vida que você limitou à mim ou se estou apenas escrevendo-te a fim de alimentar a esperança de obter uma resposta, tão simples quanto for. Não quero arriscar palpites quanto à isso… já que me conhece tão bem, te dou o direito pleno de julgar, na confiança de que fará o julgamento mais correto cabível a nossa realidade.
Disse e disse muito do que não está gravado em letras até agora, mas até o mais tolo dos homens consegue ler o que deixei implícito: o amor que lhe carrego. Preciso (e muito) dizer que as marcas de seu pedido estão abrindo espaço para as lembranças doces que somamos, e a Saudade trata-se de cuidar bem de todas elas. O que ficou é simplesmente (e grandemente) o amor que se faz presente há anos, temperado agora com a saudade e que me faz quem fui e agora rege a melodia de meus caminhos.
Meu amor, só eu sei a saudade que você deixou, e a falta que me faz pra alegrar minhas manhãs. Hoje vivo com as lembranças e elas são tudo o que tenho. E mesmo que você não possa estar em meus braços agora, para eu sussurrar nossa canção, eu fico com a felicidade que outrora possuí. Tenho que lhe agradecer por deixar viva a esperança em mim e por me fazer acreditar no amor. Foi você que me trouxe à este mundo real, e mesmo que eu lhe encontre apenas em meus sonhos, a vejo aonde forem meus caminhos.
E agora, querida, que já lhe disse um pouquinho do que guardei nesse tempo, sei que o fim de meus sonhos será outro. Esperarei que este diferente desfecho se dê e continuarei zelando por você; orando por você e para que um dia eu possa lhe contar a nova forma que você apareceu pra mim nos meu mais doce e vivo desanuvio.
Com todo amor que há nessa vida,
Arthur

O mundo não absolve


Tenho medo… de proferir uma palavra de desespero miserável, de verter uma lágrima gritante por um carinho barato, de penetrar os olhos que me encantam e me intimidam e, sobretudo, de permitir que decifrem alguns dizeres que a boca insiste em implicitar mas que a alma explicita através dos olhos chamuscantes.
Tenho medo porque o mundo não perdoa, não absolve e é míope à vida. E vocês são o mundo.

Não demores... peço-te


Estranho esse sentimento, ou eu diria simplesmente incomum. Essa mescla de ansiar e temer parece que é coisa vinda de outro mundo, não do meu. No meu mundo ideal é tudo ou nada; quero ou não quero. Eu faço esse mundo perfeito bem aqui na minha mente. Só porque está na minha mente me dizem que não é real. Ora… tolice. Há de ser real pois sou eu quem crio. Se é meu, existe. Mas tu, Felicidade traiçoeira, provoca um desejo demasiado forte em mim. Contudo me dá um medo danado. Não sei qual dos lados habitam minha mente agora. Parece que tu vens e vais, como para me provocar, quando eu quero que fiques e que fiques para sempre. É como se colocasse um cigarro em meus lábios e o tirasse roubando meu tempo de sentir o trago em meus pulmões. É de pirraça, sei que sim. Mas a brincadeira de vem & vai começa a machucar, sabe, Felicidade. Meu coração é frágil, é humano demais para seu grado, não aguenta tua presença se um dia tiveres que partir. E sei que o fará, deixando um rastro fino e vago da promessa de que voltarás. Que voltes então!, peço-te.
Que não demores por onde for tuas estradas, pois vou aqui sozinha andando até que retornes à mim, e os caminhos são curtos, a pressa é grande, tu sabes bem.
E eu preciso de ti para continuar os caminhos da vida.

Anjo...


… estive por incontáveis dias idealizando lugares que servissem de cenário e criando figurantes para complementarem este espetáculo. Agora, depois de tanto tempo fazendo-o, percebo o quão tola estive sendo. Os lugares mais belos aos olhos de quem não ama, tanto quanto os mais simplórios são indiferentes à nós, pois o que os fazem belos são os sentimentos que os habitantes exalam. E, enfim, descobri que se estivermos no deserto mais árido ou se estivermos na mais desejada Ilha, ambos seriam mágicos e a casa perfeita para nossos corpos, pois o que habita a alma é o coração que nos faz um só.
Basta apenas um pouco e mim e você por completo. E te tendo completamente, aumentou a sede. Mas para esta não tem reabilitação que faça com que eu me renda. E eu gosto; de estar, de parecer, de ser. Aqui, apaixonada, amada. De mais, sempre mais. Cada dia um novo dia – com você. Mesmo que os dias tenham todos suas 24 horas, cada qual com seu Sol e sua Lua sempre lá, são dias diferentes. E cada vez sendo fonte de maior júbilo, porque os sorrisos se renovam, o amor cresce e a vida ganha outros traços…
… e vai se metamorfoseando incessante e constantemente, enquanto nós vamos, amor, caminhando, correndo, encontrando o tempo e o acompanhando; crescendo, sentindo, sorrindo, amando.
Para sempre.
PS: O espetáculo… você conhece bem. Afinal, você é o personagem principal: É a vida; a nossa vida.

Inumanos


A mesmice dá-se todos os dias: as denúncias, o massacre, o recuso; vindos de lados tão previsíveis quanto inesperados, e dos lados que usam máscaras para que assim ocultem seus medos e defeitos mais insanos. E um pedaço sujo de papel bastaria para tamanho efeito?
Às vezes é tão difícil ser o que é quando cospem todos os seus defeitos, dia após dia, na sua face. Como se todos fossem inumanos. 
Ninguém não está sujeito à guerra. Mas eu queria saber, com essa dor de uma encrava no peito, por que nesta guerra as lágrimas são armas mais violentas que uma bala na têmpora? Se são elas quem estiveram ao longo de toda a existência sendo além do espelho de nossa alma; sendo um tônico que brinda à vida, que lava enfermidades, que concede o perdão à quem fere. E que mesmo que sirvam de um baú psíquico, guardando tudo, um dia liberta o que por algum tempo fora encarcerado. E liberta de uma vez para que os mesmos motivos jamais ousem retornar à uma casa que está, enfim, livre.
E que continue-se a guerra, enquanto todos vão “batendo na porta dos céus” por estarem míopes à vida.

Resistindo, resistindo...


Havia luzes demais; pessoas demais, quando um só buscava a alma do outro em meio tantos corações perdidos nas noites onde só havia sombra e frio. Um cigarro não saciava mais os lábios carnudos e não mais provocavam a sensação de conforto em seus pulmões desoxigenados. E o que mais temiam estava ali, zombando da estupidez de ambos: o rastro da droga ainda recém-usada por tantos os cantos tentando encontrar um lugar no corpo quase sem vida de cada um. 
A música escandalizava a perdição ao redor. Todos lúcidos de sua auto-desgraça, alienados no desdém que se ofereciam como que se fosse um favor às suas vidas. E os dois, depois de tanto tempo cronometrado provavelmente apenas pelo céu cinzento, ainda jaziam ali, cada qual no seu respectivo medo. Distantes pelo corpo, siameses na alma. 
Pouco dando vazão ao motivo, saíram desesperados em busca de si próprios. Mas as luzes coloridas chamuscavam a vida sem cor; era tudo contraditório e de tanto o ser, já era tolice ousar compreender.
Então corriam contra o monocromático, porém sentiram lágrimas demais sobre suas cabeças perdidas. A chuva fria de Agosto apanhava com cada gota um pedaço a mais dos corações quebrados, e não eis de indagar para onde os leva. Tudo que sabe-se é que dizem que um dia devolvem-os. E naquela noite ainda demasiada densa, fumacenta e cinza, bruscamente os corpos chocaram-se.
Os olhos vermelhos, os narizes fragmentados com a droga, as bocas carnudas convidando-se para uma conversa muda. 
— Por favor, não chore — o pedido súplice por uma voz que clamava pelo passado que tanto desejava por ser presente e futuro; estas palavras proferidas por uma alma que conhecia minuciosamente o paraíso que jazia sobre suas cabeças, e olhos fixos uns nos outros, cada par deles encontrando-se enfim, resistindo, resistindo, resistindo e não contendo-se mais. Quatro olhos vertendo em lágrimas que lavaram toda uma vida encarcerada no medo e dando boas-vindas ao júbilo que por tempos os aguardava. 
Finalmente o dia clareava, ilustrando duas vidas que estavam à começar a caminhar sobre um Mundo rochoso, mas recebendo de braços rendidos e de bom grado seu merecido desanuvio. Formando uma aliança: um e o outro. Tão certo e complexo quanto o nascer do Sol no coração de todos nós.

De mim


Quase sempre me encontro no mesmo lugar: aqui, perdida entre o início de um jorro de frases que se encaixam perfeitamente formando sentido algum e no fim de palavra alguma.
São meus delírios, minhas paixões, meus devaneios, meus sonhos, minha realidade, minhas contradições, a minha saudade, o meu amor. É o meu cárcere.
Sou eu.

Uma vida


É difícil discernir os sentimentos quando todas as coisas parecem escoar da bolha impermeável que eu vinha criando há meses. 
Vejo tudo indo embora em diminutos passos, como para me provocar. Mas posso estar enganada com o que vejo; sim, “é difícil ver com tantos por perto”. Indo ou não, eu ainda tenho ricas lembranças de sorrisos que tanto adoçaram meu coração. E eu posso vivê-las quantas vezes eu quiser, na mente, na alma e na realidade. Tudo sempre esteve e está em minhas mãos. Talvez seja o motivo de eu perder o controle, de tanto querer programar minuciosamente os minutos para que eu os faça perfeitos. Mas veja uma coisa: continuarei fazendo o mesmo, afinal eu tenho o controle.
As histórias sempre são vistas de ângulos particulares, e eu vejo a minha do melhor que encontrei: de dentro da bolha, uma esfera; não há ângulos. Então tudo é como parece ser de fato. Tudo sempre foi a coisa mais linda que existiu, na minha vida. E se agora tal tudo quer ir embora lentamente, então que queira. Contudo, não ei de permitir como uma espectadora da minha própria história, pois sou eu quem fiz o roteiro, sou eu quem escolhi minuciosamente cada personagem, os cenários, as palavras; sou eu quem protagonizo essa doce vida.
E que assim seja.

Devaneio pessoal


Eu gostava de estar ali, observando, de ouvidos apurados, todo o circo ao meu redor, fazendo uma participação especial apenas quando me convinha.
Estive pensando há alguns dias, pensando se há culpa e se houver, de quem é. Minha? Ora… de mim é que não vem. Eu passo a bola para um sorriso amarelo, que venho notando o quão forjado se faz ao escancarar aqueles lábios descarnudos.
Eu permaneceria no meu observatório restrito por todos os momentos, se eu não tivesse interesses em situações que se decorrem corriqueiramente. Vez ou outra me forço a inventar um assunto dos mais banais, só para iniciar um diálogo vazio, do qual não mudará nada em minha vida, mas só o faço para cravar uma pontinha de simpatia na mente de alguém que pode me ser útil um dia. Invento frases de humor infantil ou disparo frases feitas, e depois me retiro graciosamente, a observar.
Não sei realmente o quê estou procurando ao olhar e ouvir tanto. Provavelmente é só mais uma pesquisa de comportamento humano que minha mente insiste em programar para me fazer aprender com a falha alheia e, ah, como isso me ajuda, já que tenho de estar ali por quase todos os dias destes longos 18 meses que ainda restam. 
Não posso negar o afeto que involuntariamente se fez em mim em relação à algumas poucas pessoas deste circo. Contudo, este afeto é uma fonte de negação quando, outra vez, a roda se fecha. Acho que de tanto que ela se fechou, passei a estudá-la. Tenho que me incluir nela por alguns minutos… preciso de um pouco de status. Sabe, colegas legais sempre deram certostatus. Mas a paciência se esgota rápido demais. Minha mente não produz tantas frases forjadas em tão pouco tempo. São assuntos que já não têm valor algum pra mim, e discorrer sobre eles me causam um tédio danado. 
É nesta hora que me recolho à um canto confortável para observar. Estranha, me sinto melhor lá. 
Ainda bem que o terço de hora acaba rápido demais, assim posso retornar para onde ainda restam sempre mais uma hora e um pouco mais, e me importar com algo do qual realmente preciso, onde deixo de estudar o circo pessoal e passo a aprender sobre o circo global.

Tarefa deliciosamente paradoxal

Estes dias sempre me pareceram tão distantes que eu os guardava no céu. 
Remotamente imaginava um amor. Não um amor qualquer, mas o amor que viera à mim: descontrolado, de me fazer chorar de tanto ser feliz, de me fazer chorar medo.
Mamãe nunca conseguiu traduzir as emoções de um amor com suas palavras enquanto, inutilmente, o descrevia. E todas as minhas patéticas tentativas de fazê-lo foram tão inúteis quanto as de mamãe. As de todos os poetas o foram. E as de todos os loucos também.
E caberia à mim, então, morrer para viver tentando transcrever o que as palpitações de um amante coração querem mostrar à vidas de desamor? Seria eu digna de fazê-lo? Ou hipócrita em cogitar isto? 
Mas os temidos ou queridos dias estão batendo em minha porta debilmente como se eu não estivesse em casa; como se eu estivesse com medo de abrir a porta e, quem sabe, convidá-los para um chá. São dias que arrepiam os diminutos pêlos da nuca ao pensar em encará-los, e mesclam o ansiar com o rejeitar.
Viver um amor, mostrar um amor ou minimamente provar de um pedaço de amor é tarefa deliciosamente árdua, é paradoxal. E estes dias cheios dele, que tanto guardei no céu, chegaram abruptamente e eu, como se fosse dona do controle de uma força maior, tentei refrear.
Agora, eles já estão descontrolados, e sinto já estar atrasada para abrir a bela porta e preparar o chá.

Planos perfeitos


Por que você se alimenta de algo que te consome?
Faz mal. “Mas o que não faz, não é mesmo?” — Pois assim seja.
Ele estava encarcerado naquele ciclo, e gostava disso. Ou sua mente o anestesiava então aí ele gostava. Se fosse de outra forma ele também gostaria? Desconsidere isto. O pobre já excluiu as possibilidades por si só. Lamentável.
Mas ele não lamenta, não, ele adora estar lá, todos os dias depois de seu trabalho que julga seu orgulho, mas esquece do resto. Afinal, o resto é só o resto, inútil. O resto que o torna quem é.
Encosta-se no muro do bar da rua de cima, pedinho mais uma garrafa. Pede. Implora. Já estava ficando difícil, a conta muito alta, o dinheiro que já havia se esvaído, e a promessa de cada dia que no outro dia quitaria tudo o que devia. Aquelas promessas de vigarista, mas vigarista ele não era. Era só um infeliz que sorria para tudo que via, acreditando ser o salvador da humanidade perdida.
Com um jeitinho que inspirava experiência, conseguia sua garrafa e ia para casa, contente. Jogava a carteira vazia no sofá embolorado e ia buscar o copo de sempre, o da sorte. Sorte… então ligava o computador, ansioso, esperando curar o sofrimento de mais um coração ferido. Hipócrita. Ingênuo.
Nunca sabia por onde começar. Não importava, acessaria tudo de uma forma ou outra. Bastava ficar online para que a euforia começasse. Mas ele tinha tempo para todas, sempre tinha. Então cuidava de todas elas, enquanto tomava mais um gole, e fingia. Mostrava um rosto que desconhecia. Dizia coisas que não vivia. Contava o que não fazia. Mas ele era perfeito. O garoto dos sonhos. Ou pelo menos fazia acreditar que era. 
A cabeça sempre trabalhando, miraculando, fazendo alguém que não era. O corpo sempre escondido, protegido por um monitor e algumas teclas. A voz alterada, o telefone que não emudecia nunca. A vida que corria, outra pessoa que criava, um alguém oculto, mas que era parte dele, um “ele” idealizado. Uma pessoa inalcançável, mas que o homem zelava tanto por ele. E dia após dia, depois de seu trabalho miserável e da ida ao bar, inventava um dia inédito, novas experiências e jorrava “eu te amo” para todas aquelas que o idolatravam. 
Vivia por quem não era. Fazia mal. Como ele sairia disso? Acabaria com a vida? Com qual? A que ele vivia ou a de quem dizia que vivia? Perdia-se por vezes, mas gostava daquilo. Era incrível, eram planos perfeitos. Mas era tudo uma farsa. 
Tudo aquilo o consumia, mas era do que ele se alimentava.

Anônimos... brindemos!


Todos merecemos uma dose de amor. Seja em um bar fétido de esquina que abriga dezenas de amantes anônimos em noites frias, com um copo ou uma garrafa surrada até o gargalo com uma pinga barata, ou seja em um utópico paraíso.
Mas no final, quem pagará essas doses embriagantes de solidão? O Mundo não paga pra ninguém. A dívida aumenta, e os amantes vão embora para suas casas tropicando em seus próprios passos imprecisos. E riem. Gozam da vida, enquanto a própria ironiza todos os tombos na sarjeta, todas as dívidas no bar fétido, toda a solidão que ela mesma emboscou para eles.
Mas eu não disse que todos merecemos uma dose de amor? E merecemos. Merecemos também milhões de reais, milhões de sorrisos e milhões de garrafas de um bar. A vida nos deu o que merecemos?
O que merecemos esta lá, longe, inalcançável. O que temos está aqui, cheirando mofo, monotonia, nostalgia, utopia. 
Então, brindemos à vida!

Letal


Te conheci ontem, há menos de 20 horas, mas quem foi que disse que eu não posso te jurar amor e proteção eternos? As palavras estão aqui para serem usadas e satisfazer todas as minhas vontades de atirá-las em quem eu bem quiser.
Eu sei fingir. Sei dissimular, sei usar as palavras e injetá-las onde o veneno é mais letal. Eu conheço você. Eu conheço vocês. Porque eu me conheço. Vocês fizeram com que eu me conhecesse, e sou todos vocês. Somos todos iguais: um pouco de sono, fome e sede; ócio, cigarros e álcool. Mas somos mais: um sonho aqui, uma ilusão ali e hipocrisia por todos os lados. Não importa. 
Agora, sabendo disso, o veneno de cada palavra por mim proferida vai circular por seu corpo inteiro… letal. Eu vou jurar, vou te fazer amar… tão letal… 

Vocês desejam tanto um amor perfeito, um garoto perfeito, uma namorada perfeita. Inocentes que são… não sabem que o barato de tudo são as mais distintas imperfeições compartilhadas.

Se acomode, por favor


Os dias vão passando, e a alma perece aqui, por vezes ferida, em outras intacta.
Jamais pensei como seriam os dias do “anos depois”. Imaginava feições, amores, filhos, metamorfoses físicas e psíquicas, mas não imaginara os dias. Os dias corriqueiros, o cotidiano, o simples dia-a-dia. 
Rezava para alcançar com rapidez a independência. Aquele espírito jovial, com pressa, sedento por aventura e prazer. Espírito esse que espero que não morra mesmo com o passar de tantos anos que prefiro não mensurar. Rezava tanto para ser independente que quando finalmente o fui, não soube o que fazer de tantas que eram as opções que o aparente acolhedor mundo oferecia. Então esperei a independência me resgatar. Contudo, ela me traiu. Logo eu que tanto esperava o melhor dela.
E então os dias passaram.
Liberdade ou não. Já não fazia diferença. Afinal, a liberdade jamais estivera aqui, mesmo que por (muitas) vezes eu a tivesse cobiçado e perdido noites luz de sono miraculando planos para conquistá-la. É, já não fazia diferença realmente.
Os dias passaram e eu não me preparei para recebê-los. Não fiz um chá, esqueci dos biscoitos e perdi a chave da porta. Mas, sem dar atenção para nenhum destes detalhes, todos aqueles dias adentraram o hall de minha casa e se acomodaram em minha vida. Estavam plenamente confortáveis em mim, mas eu não o estava neles. De qualquer forma, tivemos que nos adaptar uns aos outros. Afinal, uma eternidade deles ainda estariam por vir, um atrás do outro, e eu teria que ter espaço para acomodar todos eles.
É… em toda aquele sede por independência e liberdade, esqueci de preparar um lugar dentro de minha alma para acomodar o Tempo. Mas estamos ambos aqui, passando, tictateando nos relógios da vida, esperando que eles parem de badalar.