Sem remorso


Demasiado desespero. Os dias não se dão mais com as costumeiras 24 horas; são 1440 minutos porque na ansiedade fez-se exagero e capricho. 1440 minutos implicam 24 horas. É a mesma coisa, teoricamente são os mesmos dias de sempre, contudo não os enfrento mais como deveria fazê-lo, com conformismo acomodado. Se deveria fazê-lo. Apenas são dias encarados com outras representações, outras capas de conteúdo exatamente idêntico. Ou haveriam controversas no contexto? Talvez um parágrafo a mais e dois a menos. Talvez uma ideia explicitada e duas recém-sacrificadas. A troca de 2 por 1, tão mal negócio. Mas isso não importa, nunca fui mulher de bons negócios. E talvez, tantos “talvezes”, seja esta uma causa do desespero: não saber negociar. Não saber lidar. Não sei lidar. Controlar é missão impossível. E não é um impossível desafiador, aquele que desperta a emoção de coragem pra provar que é possível o impossível. É o impossível da lista de impossíveis daqueles que é melhor deixar como sendo impossível, inquestionável, imutável e ponto. É impossível controlar porque não quero controlar. Quero me afogar naquilo. Sem culpa, sem regras, sem remorsos, sem limites impostos por seja-quem-for. Assim sendo, saudei a missão do desespero.
Abrir a porta de casa e me deparar com as feições de ontem me aborrece. A vida do ontem me incomoda. Lugar de ontem é no ontem. Lugar de ontem não é todo dia. E pela desesperada incompreensão do estado de espírito que me encontro, considero uma, duas, três vezes segurar o primeiro passante pelo colarinho tão bem ajeitado e indagar: “Por que vocês não vêem?” Por que eles não vêem que as coisas passaram por uma tensa mutação? Tudo ficou desigual e descontrolado, mas as feições, as extremamente irritantes feições alheias, de tão estagnadas não se permitiram enxergar.
Tudo está tão diferente, repito, e quero me perder na diferença. Ninguém vê, é o que me desespera. Se ninguém vê, só mudou comigo. Apenas eu desejo, vejo, anseio. E não queria digerir isso, não deveria estar pronta. Nunca se está pronto. Mas acontece. O “sentir” acontece. 
E desde que senti, eu vi. Foi aí que comecei a contar 1440 minutos por dia, um após o outro. Uma decisão enlouquecedora e estúpida, equivalente a paixão que senti. Enlouquecedora e estúpida, e que ninguém jamais viu.

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