Só mais um dia de trabalho


 Ergui o rosto e encarei minha face encharcada no espelho lascado. A torneira ainda derramava água como uma cascata esgotada e manchada pela terra de um barranco em risco de desabamento.
         Fixei a mesma imagem. Por entre as gotas escuras via-se tantas marcas. Não marcas, cicatrizes. “As cicatrizes são provas de que tentamos, erramos e crescemos.” E mal sei se alcancei a primeira etapa, só conquistei-as ano após ano, desde que… desde que me lembro.
         Olhos tão fundos, vazios, dois buracos negros, mas com assoalho. Com assoalho porque se não tivesse seria infinito, e as duas órbitas negras eram de plena ausência de quê e desesperada finitude. Tão finitos embora tão fundos. Tão escuros…
         Os lábios eram duas linhas finas e áridas pelo tempo seco, que se tocavam desconfortavelmente, sem opção ou saída. Duas obrigações não-relutantes, apenas conformadas de serem secas e manter-se na constância do contato do superior com inferior, inferior com superior, nessa eterna permanência.
         Nariz fino, narinas esbranquiçadas. Passei a mão e limpei o resquício que ainda estava ali.
         E duas bochechas côncavas e o resto tudo cicatriz. Irregulares, superfícies singulares de uma história, cada uma delas. Cada uma delas era um livro, cada uma um clímax.
         Estudei-me tanto que me vi de expressão cansada. Vi-me de expressão cansada desde antes de abrir a torneira, desde antes de chegar ali, desde antes daquele dia, desde antes de saber meu nome.
         Era só quem eu era, dizem que isso não se muda. Era só uma caixa de conformismo, assim como meu lábio superior encara o inferior. Era só como vivia.
         E a torneira ainda dava espaço à água; caminho livre. O barulho das gotas, aquele exato usado em torturas, enchia meus ouvidos. Não incomodava. Nada incomodava. Não existia incômodo por não existir ansiedade. Não precisava chegar à gota seguinte, tampouco ao dia seguinte. Só estava ali, defronte ao espelho, o rosto agora úmido, abrigando o par de órbitas negras, o nariz fino e os lábios de linha reta. Já bastava por ser aquilo, estava tudo bem.
         Não estava bom, porque não conhecia o bom. Mas não estava mal, pois o desconhecia da mesma forma. Só existia, executava e existia. Sem móvitos, para quê existiam? Quem eu era? Eu trabalhava. 
         Só trazia lembranças, de tudo o que havia visto. Havia visto e revia a cada cicatriz.
         Fechei a torneira e girei nos calcanhares, sem graciosidade, sem delicadeza. Peguei a arma que estava sobre a mesa e li o endereço no papel molhado que jazia ao lado. Estudei o nome que também estava escrito. Não seria uma pessoa, apenas era um nome. Um nome prestes à ser lapidado. Saí de casa ao encontro do nome que me foi dado. Só mais um dia de trabalho.
         Estava tudo bem…

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