Escuro, frio e saudade


Todos estavam ao meu redor, e eu gostava de todas aquelas pessoas, mas estava sozinha. Eu estava naquele barzinho que sempre acolhe meus amigos e a mim, mas estava perdida. Olhei para todos os lados e procurei demais, no entanto ainda não havia encontrado o que eu estivera há muito procurando.Onde estava? Doce menina, onde foi que te deixei? Se eu gritar, você me ouvirá? Mas meu coração já esteve gritando por tanto tempo…
Subitamente senti uma mão grande, quente e macia envolver meu braço. A mão parecia suave ao tocar minha pele, mas o ato fora um bocado brutal. Não pude ver sua face, por mais que eu tenha tentado. A mistura da escuridão com aquelas luzes amarelas daquele barzinho bloqueou minha visão por alguns instantes, então tudo o que pude fazer foi esperar que aquela mão aplicasse força em meu braço e me tirasse dali.
Pareceu que se passaram horas enquanto eu esperava, mas tudo aconteceu muito rápido: o aperto em meu braço, a rápida caminhada até o ambiente externo e a parada súbita no meio do estacionamento. Tudo isso tirou-me o fôlego.
Enfim pude ver o rosto. Aquele rosto. Mas por que logo aquele? Sempre me pego fazendo perguntas pra mim mesma em meu sub consciente, mas o problema é a carência de respostas pra maioria delas. De qualquer forma, depois das mil perguntas não-proferidas e depois de dez segundos de silêncio, eu disse, ainda ofegante com a rapidez de tudo:
— M-m-mas por que me tirou de lá? Eu estava me divertindo e bebendo e…
— Você está tentando mentir para mim ou para si própria? Eu te conheço perfeitamente, mas isso às vezes também me leva à pensar que não sei nada sobre você. Mas você veio, está aqui e não se esquivou de minhas mãos, como poderia ter feito se quisesse. 
Ele parecia impaciente, então calei-me. Talvez eu estivesse testando sua paciência. Eu poderia ter me esquivado realmente, porém mesmo sem saber quem havia segurado meu braço com tal indelicadeza, eu fui, mas só nessa hora que me dei conta do motivo. Acho que eu sempre soubera.
— Você sabe tão bem o quanto eu a amo e quão grande é minha vontade de tê-la comigo, segura, em meus braços. — disse ele, agora revelando uma feição mais doce, aquela que me fez retornar às lembranças aconchegantes e seguras do nosso lar, e tentei conter ao máximo a vontade desesperadora de correr para ele. — Vem, amor, está tudo como deixamos. Nada mudou. Mas tudo ficou escuro desde que você… bem, tudo esteve tão escuro que não pude ver nada exceto o frio que você deixou.
Continuei sem dizer nada. Mas ele sempre soube ler meus olhos; sempre soube interpretar com exatidão o brilho que eles revelam. Então, sem dizer mais nada, me deu um beijo. Um beijo cheio de ternura, de paixão, de desejo e de saudade. Mas, sobretudo, cheio de amor, cuidados, carinho… 
Então ali eu não estava mais perdida. Eu havia encontrado o que tanto havia procurado. Eu o estava vendo, e isso foi parte significativa da preciosidade que encontrei. Mas eu estava me vendo, também. Nos olhos dele eu me reencontrei; aquela doce menina que eu havia deixado em algum lugar e que cravou uma ausência dolorosa em mim, mas que agora retornou. Eu me encontrei por completa nos olhos dele. Cada parte secreta de meu ser.
Me revirei na cama e reconheci um abraço quente me envolvendo, e à partir daí me assegurei que havia sido real.
Então cheguei mais perto, apertei-o mais em mim e continuei sonhando.

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